Com o passar dos anos, é comum perceber mudanças na voz. Algumas pessoas começam a falar mais baixo. Outras sentem que precisam fazer mais esforço para serem ouvidas, que a voz falha ou que não conseguem conversar por tanto tempo quanto antes.
Essas mudanças podem fazer parte do envelhecimento do sistema vocal. Quando provocam uma alteração da voz relacionada ao envelhecimento, usamos o termo presbifonia. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que a voz envelhece e considerar qualquer rouquidão no idoso como normal da idade.
O que acontece com a voz quando envelhecemos?
Produzir a voz depende do funcionamento conjunto dos pulmões, da laringe, das pregas vocais e de diferentes músculos. Com o envelhecimento, essas estruturas também passam por modificações.
As pregas vocais podem perder massa muscular e apresentar alterações na elasticidade, na lubrificação e na capacidade de se fecharem adequadamente durante a produção da voz. O sistema respiratório também envelhece e pode oferecer menor suporte para a fala.
Algumas pessoas podem perceber voz mais fraca, menor volume, voz soprosa, rouquidão, falhas, maior esforço para falar, cansaço depois de conversar ou dificuldade para projetar a voz. Essas alterações variam bastante e nem todas as pessoas apresentam mudanças importantes.
O que é presbifonia?
Presbifonia é o nome utilizado para uma alteração da voz associada ao processo de envelhecimento. Ela não é definida apenas pela idade. Antes de atribuir uma alteração vocal ao envelhecimento, é importante verificar se existe outra condição capaz de explicar aquela mudança.
Nem toda rouquidão no idoso é presbifonia
Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Speech-Language Pathology analisou idosos que procuraram atendimento devido a problemas de voz. A presbifonia respondeu por aproximadamente 18% dos casos de disfonia no conjunto dos estudos analisados.
Isso significa que havia muitas outras causas além do envelhecimento. A rouquidão pode estar relacionada a processos inflamatórios, alterações neurológicas, lesões das pregas vocais, paresias ou paralisias e outras condições da laringe.
Quando a rouquidão merece atenção?
Uma rouquidão que aparece durante um resfriado e melhora em pouco tempo é diferente de uma mudança vocal que permanece. Diretrizes clínicas recomendam avaliação da laringe quando uma disfonia não melhora ou não desaparece em até quatro semanas. Em algumas situações, a investigação deve acontecer antes.
É especialmente importante procurar avaliação diante de dificuldade para respirar, nódulo ou massa no pescoço, histórico importante de tabagismo, mudança vocal após cirurgia de cabeça, pescoço ou tórax, após intubação, piora progressiva ou dificuldade para engolir.
Esses sinais não significam necessariamente que exista uma doença grave. Significam que não é adequado atribuir a alteração apenas ao envelhecimento sem investigar sua causa.
E se for realmente uma alteração relacionada à idade?
Mesmo quando a avaliação mostra que a mudança está relacionada ao envelhecimento vocal, isso não significa que a pessoa simplesmente tenha que conviver com ela. A presbifonia pode interferir na comunicação e na participação social.
A fonoaudiologia pode ajudar?
Sim. Depois de investigada a causa, a terapia fonoaudiológica pode ser indicada para diferentes quadros de disfonia, inclusive alterações relacionadas ao envelhecimento.
A avaliação observa qualidade vocal, intensidade, coordenação entre respiração e voz, esforço, resistência vocal e impacto na comunicação cotidiana. A partir disso, o tratamento é individualizado. Estudos sobre presbifonia indicam que a terapia vocal pode melhorar o desempenho da voz e reduzir limitações relacionadas à comunicação.
Então é normal a voz mudar com a idade?
Algumas mudanças podem ocorrer com o envelhecimento. Mas rouquidão persistente não deve ser automaticamente considerada normal.
O envelhecimento pode modificar a voz. A rouquidão, porém, é um sintoma e, quando persiste, é necessário compreender sua causa.
Se uma mudança vocal persiste por semanas, interfere na comunicação ou vem acompanhada de outros sintomas, vale procurar avaliação.
Referências
- Chang FC et al. Prevalence of Presbyphonia in Older Adults With Dysphonia: A Systematic Review and Meta-Analysis. AJSLP. 2023.
- Galluzzi F, Garavello W. The aging voice: a systematic review of presbyphonia. European Geriatric Medicine. 2018.
- Stachler RJ et al. Clinical Practice Guideline: Hoarseness (Dysphonia) (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery. 2018.
- Stradtman M, Etter NM. Reframing Aging Voice and Presbyphonia: What Else Can We Do? 2022.
- Zhang K et al. Presbyphonia: A Scoping Review for a Comprehensive Assessment of Aging Voice. Journal of Voice. 2024.